Como os perdoados devem perdoar – Lc 17.3-5

Queridos, há muitas passagens da Bíblia que nos fazem temer e tremer. Porém, há uma que conhecemos bem, e repetimos constantemente sem levar em conta a sua profundidade e a sua gravidade. Ela se encontra na oração do Pai Nosso que estamos expondo nos boletins dominicais: Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores (Mt 6.12Mt 6.12).

Prestem atenção, irmãos! Não há dúvida de que não consideramos a seriedade dessa petição, porque para nós, é muito mais difícil perdoar aos nossos devedores do que é para Deus nos perdoar as nossas dívidas. A nossa sorte é que há versículos na Bíblia como Lm 3.22 Lm 3.22 As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas misericórdias não tem fim; renovam-se a cada manhã.

Ah, irmãos! O profeta sabia que, se Deus fosse tão relutante em nos perdoar como nós somos para perdoar aqueles que nos ofendem, fatalmente seríamos consumidos. Por isso, nós temos que assimilar o seguinte: Se como cristãos somos pessoas perdoadas por Deus tantas vezes quantas pequemos por conta da nossa fraqueza, da mesma forma somos chamados a ser pessoas perdoadoras em igual proporção.

É isso que Jesus ensina, tanto na oração do Pai nosso, quanto nesse trecho que lemos. Porém, há muita confusão pela falta de entendimento desses ensinamentos de Jesus, que precisam ser esclarecidos: 1º) A quem devemos perdoar?  2º) O que o perdão requer?  3º) Até quanto devemos perdoar? Vamos ver isso mais de perto.

A primeira questão é: a quem temos o dever de perdoar? Notem que este ensino de Jesus aplica-se especificamente ao pecado envolvendo irmãos, como está escrito no v.3: Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Ou seja, segundo este ensinamento claro de Jesus, temos o dever de repreender e de perdoar o nosso irmão faltoso, porém, com a condição de que ele se arrependa. Esta é a condição básica para que haja perdão: arrependimento.

Quando Jesus veio ao mundo pela primeira vez, veio com a missão específica de salvar. Em obediência ao Pai, ele veio determinado a sofrer tudo que tinha de sofrer, até a morte na cruz. Jesus não veio julgar, muito menos condenar. Porém, o seu exemplo de bondade, bem como alguns de seus ensinamentos, por falta de compreensão, faz com que algumas pessoas pensem que cristão tem que ser uma espécie de abestado disposto a suportar tudo, calado.

Dentre os ensinamentos de Jesus a esse respeito, o mais citado, exatamente pela falta de compreensão, é o que se encontra em Mt 5.39 Mt 5.39 – Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir a face direita, volta-lhe também a outra. O que Jesus está nos ensinando aqui? A sermos tolerantes, pacientes e longânimos para com aqueles que abusam de nós. Ele nos ordena que devemos estar dispostos a andar a segunda milha, porque não é coerente um cristão contencioso, agressivo e briguento. O Cristão precisa ser longânimo, como Deus é longânimo conosco.

Porém, eu preciso repetir: Isso não quer dizer que sejamos tolos, abestados. Quando Jesus diz que se alguém nos ferir a face direita, devemos oferecer-lhe também a outra, isso não quer dizer que devemos levar duas tapas na cara, nem quer dizer que se alguém sequestrar o nosso filho, devemos oferecer-lhe também a nossa filha. Não é isso. Esta expressão oferecer a outra face, era uma expressão judaica comum naquela época, que significava simplesmente capacidade de suportar insultos.

Portanto, os ouvintes de Jesus compreenderam perfeitamente o seu ensinamento de que os seus discípulos deveriam ser tolerantes, pacientes longânimos, caso fossem insultados, e que por serem cristãos, não deveriam reagir da mesma forma. Essa é a primeira lição desta passagem: A quem devemos perdoar? Ao nosso irmão, neste caso, e o enfoque principal da ofensa a ser perdoada é o insulto verbal, e não violência física.

A segunda questão é: O que o perdão requer? Segundo o v.3, Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Já vimos que, neste ensinamento específico de Jesus, quem peca é um irmão, e não uma pessoa qualquer. Porque lembramos isso? Porque irmão não é a mesma coisa que próximo, e o ensinamento aqui é específico para o pecado de um cristão como nós. Para o caso de um ímpio, de acordo com o discernimento espiritual de cada questão, e com a assessoria de um profissional competente, podemos nos valer das leis do nosso país.

Porém, observem, que mesmo no caso de um irmão, o Senhor ordena que ele deve ser repreendido, ou seja, não devemos aceitar a ofensa pacificamente e ficar por isso mesmo. O irmão deve ser repreendido, e em consequência da repreensão, se ele se arrepender, então, temos o dever de perdoá-lo, assim como somos perdoados por Deus.

Observem como Jesus enfoca a nossa imagem e semelhança de Deus: assim como Deus exige arrependimento de nós para nos conceder perdão, somos ensinados por Jesus a agir da mesma maneira com o irmão ofensor. É claro que podemos escolher perdoar, mesmo sem o arrependimento do irmão, mas isso não implica em restauração natural do relacionamento rompido pela ofensa. Prestem atenção, irmãos! Conquanto devamos estar sempre dispostos a perdoar, como o Senhor Jesus ensina, o perdão está condicionado ao arrependimento daqueles que o buscam. Esta é a condição para que haja perdão com a restauração do relacionamento rompido pelo pecado. É assim que Deus age, e é assim que precisamos agir, segundo a sua ordem clara.

A terceira questão é: Até quanto devemos perdoar? Como acabamos de ver na segunda lição extraída do texto, o perdão exige arrependimento para que haja restauração do relacionamento rompido pela ofensa. Por isso, neste terceiro ponto, o Senhor Jesus nos ensina que, uma vez perdoado o pecado, o que implica dizer que já houve a repreensão do irmão ofensor, o arrependimento e a restauração do relacionamento, não pode mais haver qualquer efeito negativo ou barreira no relacionamento pessoal entre ofendido e ofensor.

É assim que Jesus ensina no v.4: Se por sete vezes no dia pecar contra ti, e por sete vezes vier ter contigo dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. Isso quer dizer que se o meu irmão pecar contra mim, se arrepender e for perdoado, e depois cometer outro percado, mesmo que semelhante ao anterior, não devo dizer-lhe: “escute aqui, meu irmão, esta é a segunda vez que você faz isso”. Não, não pode ser assim! Pelo ensino do Mestre, eu não posso ter um placar para marcar os pecados do meu irmão.

Quando eu perdoei o primeiro pecado, a exemplo do que Deus fez comigo, eu apaguei o registro daquele pecado, eu rasguei a Nota Promissória e não posso mais usá-la contra o meu irmão. Se ele pecar outra vez, esta será sempre encarada como a primeira vez, já que a anterior foi apagada. A assimilação desse terceiro ponto e da lição que ele encerra é dificílima, exatamente pelo fato da repetição do mesmo pecado. “Outra vez, meu irmão? E você ainda vem com essa cara cínica me pedir perdão de novo”?

Irmãos queridos, quanto mais estudamos a Bíblia, mais humilhados ficamos diante do nosso Deus. Se perdoar a mesma ofensa duas vezes já é muito difícil, como acabamos de falar, muito mais difícil será perdoar sete vezes, como Pedro imaginou que seria grande coisa, segundo o relato de Mt 18.21-22 Mt 18.21-22 sobre este mesmo assunto. Então podemos concluir facilmente que será uma impossibilidade absoluta perdoar setenta vezes sete, como o Senhor Jesus respondeu a Pedro naquela ocasião, sem que entendamos a magnitude do perdão recebido de Deus. Irmãos, como isso nos humilha diante de Deus, por reconhecer, à luz de ensinamentos como este, quão miseráveis nós somos, e quanto carecemos da graça e da misericórdia de Deus.

Quantas e quantas vezes cometemos os mesmos pecados, e o Senhor nos perdoa todas as vezes, pela sua graça e misericórdia. Não é de admirar que os discípulos, após ouvirem esse mandamento do Senhor, pediram-lhe: Senhor, aumenta-nos a fé (v.5). Realmente, só pela fé, irmãos. Fé, neste caso é sinônimo de capacidade para obedecer às ordens do Mestre, ordens que só podem ser assimiladas pelo estudo diligente da sua palavra, pela iluminação do Espírito Santo, a fim de que cresçamos em santidade, agindo de forma cada vez mais parecida com o nosso Senhor Jesus. É isso que aprendemos nesse pequeno trecho sobre o perdão, irmãos!

Que Deus nos ajude, a compreender essas lições: ser cristão não é sinônimo de ser um tolo, um abestado, que a Bíblia chama de símplices, ou pessoas sem capacidade de julgamento, imaginando que isso é sinônimo de humildade. Precisamos discernir as coisas, entendendo que discernimento é fruto do conhecimento. Como ensina o Senhor Jesus, Se um irmão cometer pecado, precisamos repreendê-lo, senão estaremos sendo condescendentes com o seu erro. Se ele se arrepender devemos perdoá-lo tantas vezes quantas ocorrerem, considerando cada ocorrência como se fosse a primeira, numa demonstração de que, de fato, fomos criados e recriados à imagem e semelhança de Deus, nosso Pai.

Que Deus nos conceda graça para entender os seus ensinamentos, e mais graça para pô-los em prática, para louvor da sua glória! Amém!