A glória de Deus na comunhão dos santos – Jo 13.31-35

Queridos, aqui no capítulo 13 do evangelho de João se inicia o relato da última reunião que o Senhor Jesus, antes da crucificação, teve com os seus doze discípulos, logo reduzidos a onze, já que Judas saiu para traí-lo (v.27). Naquela ocasião da Páscoa, Jesus lhes transmitiu ensinamentos que vão até o capítulo 17, na conhecida oração sacerdotal. Depois disso, veio a paixão de Cristo, a sua prisão, sofrimento e morte na cruz.

No primeiro versículo que lemos, podemos ver que Judas havia acabado de sair para trair Jesus, e naquele momento Jesus diz que foi glorificado. Em que sentido ele foi glorificado? Na comunhão com o Pai, evidenciada na sua obediência. É claro que Jesus sabia o que significava a saída de Judas para traí-lo. Ele sabia que isso implicaria na sua prisão, no início do seu sofrimento e morte na cruz, mas ele sabia que essa era a vontade do Pai. Jesus sabia que para isso mesmo ele veio ao mundo.

Por isso, Jesus diz que foi glorificado, e que o Pai foi glorificado nele (vv.31-32). Eu tenho convicção de que os discípulos não entenderam estas palavras de Jesus. Nós, porém, pela revelação progressiva da palavra de Deus, podemos entendê-la. Sabemos que a crucificação de Jesus redundou na glória do Pai, que o mandou para esse fim, assim como foi glória para o próprio Jesus, no momento em que ele demonstrou o seu poder para se humilhar em obediência à vontade do Pai, no momento em que ele demonstrou o seu poder para exercer compaixão pelos pecadores escravizados pelo pecado, e efetivamente demonstrou seu grande amor ao morreu pelos eleitos do Pai, para louvor da sua glória.

Jesus sabia que esta era a vontade do Pai, e sabia que, como Filho, seria ele o executante da obra redentora determinada pelo Pai. Que demonstração de perfeita comunhão! Em seu amor, aprouve ao Pai que o Filho morresse para redimir a criação caída. Em seu amor, aprouve ao Filho entregar-se em sacrifício, porque esta era a vontade do Pai.

Irmãos, este é o alicerce sobre o qual devemos entender a glória de Deus na comunhão dos santos. Observem que não basta saber a vontade de Deus. A glória de Deus se manifesta quando os seus servos sabem, e fazem o que sabem segundo a sua vontade. Alguns versículos antes, ensinando sobre a humildade de um servo, Jesus disse: Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes (v.17). Portanto, a bem-aventurança, ou a felicidade do servo está exatamente em fazer a vontade do seu Senhor, o que evidencia comunhão, e proclama tanto a glória do Senhor quanto a glória do servo.

A questão é: quem quer ser servo neste mundo egoísta, individualista, em que todos querem ser servidos, mesmo sabendo que ninguém está disposto a servir a ninguém? Quem quer ser servo, se o ensino geral é que o próprio Deus é servo dos homens, e que estes são merecedores de toda sorte de bênçãos, bastando apenas pagar por elas? Onde está o ensino sobre amor que levou o Pai a determinar a morte do próprio Filho em uma cruz, por causa dos nossos pecados? Onde está o ensino sobre o amor que levou o Filho a oferecer-se em sacrifício, segundo a vontade do Pai, por causa dos nossos pecados?

Pois é, irmãos! Jesus já sabia que, por causa dos nossos pecados, esse amor tenderia a se esfriar, como ele mesmo afirmou: E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos (Mt 4.12Mt 4.12). Por isso, diante da iminência da sua paixão, Jesus ordena aos seus discípulos que eles se amem com um amor diferente. O amor que eles conheciam é o amor que se esfriará por se multiplicar a iniquidade. O mandamento envolve um amor que, dentro de poucas horas, seria demonstrado na cruz do Calvário (v.34).

Convém lembrar que a ordem para amar uns aos outros, ou amar o próximo como a si mesmo não era nenhuma novidade para os discípulos de Jesus, já que esse mandamento consta da lei de Moisés (Lv 19.18Lv 19.18). Então, que novo mandamento é este que Jesus lhes deu? Em que sentido ele é novo mandamento? Prestem atenção, irmãos! Relembramos que o alicerce sobre o qual devemos entender a glória de Deus, como Jesus a expôs nesse pequeno trecho, está na sua comunhão com o Pai, no momento em que um tinha prazer em fazer a vontade do outro, de modo que um fosse glorificado no outro (vv.31a-32).

Portanto, o padrão do amor que deveria e deve ser praticado pelos discípulos de Jesus é o seu amor sacrificial, em obediência ao Pai, para a glória do Filho, e para que o Pai seja glorificado no Filho. Será que entendemos isso, irmãos? Será que compreendemos a ordem do Senhor Jesus quando nos manda amar os nossos irmãos como ele nos amou? Será que demonstramos isso ao menos com os nossos cônjuges, com os nossos pais, com os nossos filhos, com os nossos irmãos, sacrificando-nos por eles em amor obediente ao Senhor, ou ainda continuamos no padrão do mundo, querendo ser servidos por eles?

Prestem atenção, irmãos! É comum ouvir pessoas da Igreja falando que não amam mais os seus cônjuges, e por isso querem se separar. Algumas, para nossa tristeza, já se separaram. Por que isso? Por que tais pessoas nunca entenderam a ordem de Jesus, e nunca compreenderam que a ordem está alicerçada no seu amor por nós: assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Esse é o novo padrão de amor que foi ordenado.

Ou seja, o novo mandamento envolve comunhão, e isso implica que nós devemos nos doar uns aos outros em amor sacrificial, da mesma maneira que Jesus se doou por nós em amor sacrificial. E mais, o novo mandamento nos mostra que, assim como Jesus, pela comunhão com o Pai, foi capacitado a fazer a sua vontade, da mesma maneira nós também seremos capacitados ao amor sacrificial, no momento em que nos dispusermos a obedecê-lo, como ele se dispôs a obedecer ao Pai. Se, em obediência ao Pai, Jesus foi capaz de nos amar até a morte, e morte de cruz, certamente ele nos capacitará, pela obediência, a amar como ele nos amou: assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.

Nenhum cristão verdadeiro tem dúvida de que o amor de Deus por nós é evidenciado no fato de ele ter dado o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16Jo 3.16). Nenhum cristão verdadeiro tem dúvida de que Jesus, o bom pastor, em perfeita comunhão com o Pai, deu a vida por suas ovelhas, segundo a vontade do Pai (Jo 10.11Jo 10.11). Pois bem, este é o padrão de amor do novo mandamento dado pelo Senhor Jesus, e é esse amor que demonstrará que somos seus discípulos (v.35).

Irmãos queridos, como temos dito aqui tantas vezes, ser crente é milagre. Obviamente, pela própria exposição até aqui, dá para ver que ninguém, por si só, consegue desenvolver um amor dessa natureza. Todos nós sabemos que o nosso amor é carnal, interesseiro, e carente de reciprocidade. Amar como Jesus nos manda é algo sobrenatural, e jamais poderemos obedecer, se não houver comunhão com ele, o que implica salvação.

Como sabemos, antes da regeneração, o pecador não pode ter comunhão com Deus. Somente Jesus, pelo seu sacrifício na cruz, é a propiciação para que haja reconciliação e comunhão com o Pai. Pois bem, este ensino de Jesus é para os seus discípulos, para aqueles que já foram reconciliados com o Pai, e que, por isso, podem entender e obedecer ao que ele manda, certos de que, agora, em comunhão com o pai e com o Filho, também podem ter comunhão com os irmãos, dedicando-lhes o mesmo amor recebido.

É isso que se espera de nós, irmãos, e nada menos que isso. Comunhão capaz de demonstrar o amor de Deus em nós, e através de nós, amor profundo, sacrificial, resultante de um caráter transformado à semelhança de Jesus. É assim que se manifesta a glória de Deus nos seus santos, no momento em que a nossa comunhão reflete a comunhão de Jesus com o Pai.

Maridos sacrificando-se pelas suas esposas, em submissão a Jesus; esposas sacrificando-se pelos seus maridos, em submissão a Jesus; pais sacrificando-se pelos seus filhos, em submissão a Jesus; filhos sacrificando-se pelos seus pais, em submissão a Jesus; irmãos sacrificando-se uns pelos outros, em submissão a Jesus, todos em comunhão com Jesus, como Jesus sacrificou-se por nós em comunhão com o Pai. Este é o alicerce sobre o qual devemos entender a glória de Deus na comunhão dos santos. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros (v.35).

Que Deus nos conceda graça para compreender este novo mandamento do Senhor Jesus, e mais graça para pô-lo em prática, para louvor da sua glória. Amém.