O cuidado e a oração pastoral – Cl 1.1-12

Queridos, a carta de Paulo aos colossenses tinha como objetivo primário adverti-los contra o ensino de heresias, contra o ensino de doutrinas falsas, especialmente o gnosticismo, doutrina que tira a centralidade da salvação da pessoa de Jesus Cristo.

Paulo rebate isso logo no primeiro capítulo, nos vv.13-20, quando expõe sobre a excelência da pessoa e da obra de Cristo, e adverte claramente no cap. 2.8 – Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. E ele está falando da sabedoria dos mestres gregos e da tradição dos líderes judaizantes dentro da Igreja. Ele não está falando de alguém de fora da Igreja não.

Denunciar os falsos mestres e os seus ensinos errados é um aspecto fundamental do ensino de todos os profetas do Velho Testamento, do Senhor Jesus, e dos seus apóstolos, e eu sigo na mesma linha. Mas não é sobre isso que vamos falar hoje, e sim sobre a principal motivação do cuidado pastoral, e da oração pastoral.

Primeiramente, nos vv.1-2 Paulo se apresenta aos colossenses, com Timóteo, seu companheiro de viagem, fala da santidade e fidelidade daqueles irmãos, e lhes deseja a graça e a paz de Deus. Depois, nos vv.3-8, o apóstolo diz que sempre dá graças a Deus pela fé, pelo amor e pela esperança, enfim, pela vida de santidade crescente naqueles irmãos, a partir da pregação do evangelho pelo conservo Epafras, um auxiliar de Paulo.

Prestem atenção, irmãos! Quando a Bíblia diz que devemos ser irrepreensíveis, de boa fama tanto para os de dentro da Igreja como para os de fora – e essa palavra se aplica primeiramente aos líderes da Igreja -, é por causa do testemunho de santidade e fidelidade que as pessoas darão a nosso respeito, sabendo que nós carregamos o nome de Deus. Certamente era isso que estava na mente de Paulo quando diz primeiramente que orava a Deus, dando graças pela vida de santidade daqueles irmãos colossenses, a partir do seu entendimento da palavra que lhes fora pregada por Epafras.

Como eu tenho insistido em lembrar constantemente aos irmãos, é impossível crescer em santidade e fidelidade a Deus sem o indispensável crescimento no conhecimento da doutrina. Como diz o salmista (Sl 119.11Sl 119.11), é o conhecimento da Palavra que nos manterá distante do pecado. É por isso que Senhor Jesus pede ao Pai que santifique os seus discípulos na Palavra (Jo 17.17Jo 17.17).

Agora eu quero dar uma informação que talvez vocês não saibam. Colossos era uma cidade decadente, já que outras cidades próximas, como Laodicéia, haviam superado a sua importância comercial. Além disso, aquela região estava sendo castigada por uma grande estiagem. Baseados na nossa cultura materialista, era de se esperar que Paulo pedisse a Deus bênçãos materiais para os irmãos, alguma providência divina no sentido de melhorar a qualidade de vida daqueles irmãos.

Qualquer pastor, como nós os conhecemos, pediria chuva para que houvesse maior produção agropecuária, emprego, renda, comida, fartura, enfim, coisas de que os irmãos colossenses estavam bastante necessitados. Mas Paulo sequer mencionou estas coisas, que eram do seu conhecimento. Ao invés disso, pediu que eles transbordassem de pleno conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e entendimento espiritual (v.9).

Não é interessante isso, queridos? Eu tenho falado estas coisas aqui, e pode ser que alguém me ache muito romântico com relação à vida, quando digo que as coisas materiais não têm tanta importância, ou muito espiritual quando digo que esta vida secular não tem sentido se não for para servir a Deus e ao próximo, ou talvez muito duro quando insisto em santidade independentemente das circunstâncias de calamidade econômica, social e moral em nosso país. Afina, nós precisamos das coisas aqui e agora.

Mas, lembramos que, quando os discípulos de Jesus demonstraram ansiedade sobre o que comer, o que beber e o que vestir, o Mestre lhes disse que os gentios é que se preocupam com estas coisas. Honestamente, todos os irmãos têm de admitir que estas coisas são o principal motivo das orações de pastores e seus liderados nos chamados cultos de oração, quando o Senhor Jesus diz que os seus discípulos devem buscar o reino de Deus e a sua justiça, que é o conhecimento de Deus (Mt 6.25-33Mt 6.25-33).

Em sua famosa oração sacerdotal (Jo 17), o Senhor Jesus pede ao Pai, não que  tire e os seus discípulos do mundo, mas que os livre do mal (v.15), e ele não está falando do mal físico ou material, e sim do maligno, do pecado, das coisas próprias do mundo em que eles teriam que viver e pregar o evasngelho. Por isso, ao contrário disso, ele pede que o Pai os santifique na verdade, que é a sua palavra (v.17).

 Por isso, no v.10, Paulo diz que somente a partir do pleno conhecimento de Deus, é que poderemos viver de modo digno do Senhor, para o seu agrado, e não para o nosso agrado, frutificando em toda boa obra. Não esqueçam que são os frutos, com base no conhecimento, e não no que sentimos, como pregamos no domingo passado, que testificam a nossa condição de filhos de Deus, independentemente de estarmos em circunstâncias favoráveis ou não neste mundo.

E como conseguir esse pleno conhecimento de Deus? Buscando-o diligentemente através do estudo responsável da sua Palavra Revelada. O v.11 nos diz que é o pleno conhecimento de Deus que nos fortalecerá com o seu poder, que nos dará perseverança, longanimidade e alegria, tudo isso segundo a força da sua glória. Este deve ser o objetivo de buscarmos o pleno conhecimento de Deus: a sua glória, e não a nossa glória, como ele mesmo ensinou a Israel através do profeta Jeremias: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor, e faço misericórdia justiça e juízo na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor (Jr 9.23-24Jr 9.23-24).

Esta deve ser a única glória buscada por nós neste mundo: o pleno conhecimento de Deus, conhecimento que nos leva a tributar a glória que lhe é devida. Esta era a motivação pastoral de Paulo, e por isso ele arremata no v.12 dizendo que devemos seguir em santidade e fidelidade, dando graças a Deus que nos fez idôneos, capazes de compreender a sua revelação, e nos tornou herdeiros do reino do céu.

Ou seja, se não fosse pela graça de Deus, jamais nos capacitaríamos, jamais seríamos aptos a compreender a sua vontade revelada e a receber a herança dos santos na luz. Por isso, toda nossa gratidão, todo nosso louvor, toda nossa adoração a Deus, ainda é pouco. É isso que aprendemos nessa introdução da carta aos Colossenses, e é isso que deve pautar o cuidado e a oração de um pastor pelas ovelhas, a fim de que vivamos neste mundo, para a glória de Deus, e não que ele exista para nos abençoar, independentemente de conhecermos ou não a sua vontade.

Como vemos em todas as cartas apostólicas, o cuidado pastoral com o ensino, e o motivo das orações inspiradas é que, a partir do crescimento no conhecimento de Deus não nos cansemos de adorá-lo com nossas vidas; não nos cansemos de louvar a Deus com nossas orações, ações de graças, súplicas e intercessões uns pelos outros; não nos cansemos de glorificar a Deus com as boas obras que ele mesmo de antemão preparou para que andemos nelas, como convém aos santos.

Esta deve ser a principal motivação para o cuidado pastoral, e para as orações de um pastor, pelas ovelhas sob sua responsabilidade. Quer cresçam no conhecimento de Deus e da sua vontade para as nossas vidas

Que Deus nos conduza nessa caminhada, até o dia em que nos encontraremos com ele na sua glória eterna. Amém.