Os valores do crente – Lc 12.13-21

Queridos, nesta semana que passou, durante as festas de carnaval, nós conversamos com vários irmãos, inclusive de outras igrejas, e ficamos estarrecidos com os seus valores, completamente diversos dos valores cristãos. Todos nós sabemos o quanto é difícil nos desprender dos valores desse mundo e nos centrar nos valores do reino de Deus. No entanto, não podemos esquecer que, se aqui vivemos, aqui plantamos e aqui colhemos, nós não somos deste mundo. Somos cidadãos do reino dos céus.

Então, conscientes de que somos cidadãos do reino dos céus, precisamos lutar para que os valores deste mundo, que são materiais e passageiros, não tomem o lugar dos valores do reino dos céus, que são espirituais e eternos. É claro que, enquanto estivermos neste mundo, teremos que lidar com os bens e valores seculares, e é por isso que o Senhor Jesus nos ensina a lidar com eles, como nesta passagem bíblica que lemos.

Vamos ao contexto! O Senhor Jesus estava admoestando e encorajando os seus discípulos, a propósito dos falsos ensinamentos dos fariseus. Nisso, aparece um homem do meio da multidão solicitando que Jesus julgasse um litígio entre ele e seu irmão a respeito de uma herança. Os rabinos tinham autoridade para esse tipo de julgamento, e Jesus era tido como um rabino. Por isso, o homem o procurou.

No entanto, Jesus recusou a honraria de ser juiz perante os homens, já que não foi para isso que ele veio ao mundo. Como ele mesmo declarou no episódio de Zaqueu, o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10Lc 19.10). Porém, na sua sabedoria, o Mestre aproveitou aquela ocasião para transmitir ensinamentos aos seus discípulos a respeito da avareza, pecado que ele deve ter percebido naquele homem.

Observem que no v.14 Jesus respondeu diretamente ao homem que lhe fez o pedido, com uma única frase: Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós? Porém, no v.15, continuando o assunto, Jesus já se dirigiu a todos: Então lhes recomendou. Ou seja, o Senhor Jesus aproveitou a oportunidade para transmitir ensinamento a todos os que o ouviam, começando com uma parábola. Depois, mais especificamente, passou a ensinar aos seus discípulos, como lemos no v.22 A seguir dirigiu-se Jesus a seus discípulos.

Voltemos ao v.15 para examinar os ensinamentos do Mestre sobre os cuidados que devemos ter com a avareza: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza.   Avareza, irmãos, é o apego às riquezas, aos bens materiais, ao dinheiro, do tipo quanto mais tem mais quer, nunca se satisfaz, sempre quer mais, e mais, e mais. É possível que Jesus tenha identificado esse pecado no homem que o procurou para pleitear parte de uma herança, e por isso o Senhor aproveitou a oportunidade para dar uma lição a todos os seus ouvintes, em especial aos seus discípulos, porque ele sabe da inclinação natural do homem pecador para a avareza.

O ensino lógico de Jesus tem uma razão muito simples: v.15b – porque a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. Prestem atenção, irmãos! Vida, felicidade, satisfação, essas coisas não podem ser condicionadas ou medidas pela quantidade de bens que possuímos ou deixamos de possuir. Por isso, Jesus então ilustra essa verdade com uma parábola (vv.16-21).

Observem que não há recriminação pelo fato do homem da parábola ter ficado rico. Ao que parece, ele trabalhou e fez por onde conseguir a sua riqueza, e isso é bênção de Deus. A esse respeito, Paulo ordena a Timóteo: exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento (2Tm 6.172Tm 6.17). Ou seja, havia alguns ricos na igreja de Timóteo, e ele precisava orientá-los a agir corretamente com respeito às riquezas que Deus lhe deu; que eles deviam depositar as suas esperanças no Deus das riquezas e não nas riquezas que vêm de Deus.

Eis o problema do homem da parábola: mesmo que ele tenha trabalhado licitamente para adquirir a sua riqueza, o seu prazer e a sua esperança estavam na riqueza e não em Deus e muito menos no próximo. Observem os pronomes por ele empregados: meus frutos; meus celeiros; meu produto; meus bens; minha alma, nada de gratidão a Deus, nada de preocupação com o próximo, inclusive com aqueles que trabalhavam para ele.

O seu diálogo era de si para si mesmo. V.19 – Então direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe e regala-te. Egoísmo absoluto, uma característica da avareza. Percebe-se claramente que o senso de segurança daquele homem era proporcionado pela sua riqueza, e isso produz um falso sentimento de independência de Deus. Eu tenho tudo de que preciso, e eu consegui com o meu trabalho. Então o Senhor Deus olha para ele, e diz: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (v.20).

Louco! Deus está dizendo que o indivíduo avarento é um louco. Sabem por que, irmãos? Vamos elencar três motivos: Primeiro motivo – a avareza é idolatria – Em Mateus o ensinamento de Cristo acerca da ansiedade, o mesmo assunto tratado aqui, é precedido pela seguinte afirmação: Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas (Mt 6.24Mt 6.24). Ou seja, Deus exige adoração exclusiva. Tentar dividir a devoção entre Deus e as riquezas é idolatria, e idolatria é loucura.

Segundo motivo – A avareza é apego à futilidade – Apegar-se a bens materiais é apegar-se ao que não tem sustentação, e aquilo que não se sustenta não pode sustentar nada. Na mesma passagem de Mateus o Senhor Jesus refere-se às riquezas como tesouros que a traça e a ferrugem corroem e que os ladrões escavam e roubam (Mt 6.19Mt 6.19). Ora, como as riquezas deste mundo se gastam com o tempo, e que podem ser roubados, de fato, é loucura apegar-se ao que não tem sustentação em si mesmo.

É como alguém que está se afogando imaginar-se seguro porque agarrou-se a uma tábua de salvação, só que essa tábua está descendo a correnteza livremente em direção à cachoeira. Que segurança ela pode dar? Irmãos, queridos, os recursos materiais são bênçãos de Deus, e as bênçãos não podem ser um fim em si mesmas. Elas são apenas um meio através das quais nós servimos a Deus e ao próximo.

Terceiro motivo – A avareza tira o foco do homem do seu principal propósito – Quando o homem se dedica a entesourar bens aqui na terra ele se esquece de tantas coisas importantes como família e amigos. Até a família é negligenciada, e os supostos amigos normalmente são aqueles que lhe podem proporcionar algum negócio que aumente os seus bens, e quanto mais tem, mais quer; e quanto mais tem, mais poderoso ele pensa que é, e quem é poderoso não precisa de Deus.

Esse é o pico da loucura. A avareza tira o foco do homem de que ele existe para a glória de Deus, e que para isso ele precisa viver na dependência de Deus para alcançar o seu propósito, qual seja, a glória de Deus. O homem da parábola só via a si próprio; só via a sua satisfação própria; só via o seu próprio prazer, valores falsos provocados pela avareza, que lhe proporcionava uma falsa segurança. Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

Após a morte daquele homem, cessou totalmente o vínculo que ele tinha com os seus bens, os bens que ele julgava lhe dar segurança. É bom observar que, tanto a manutenção do vínculo com os bens enquanto o homem era vivo, como a perda do vínculo com a sua morte, não alteraram em nada o seu relacionamento com Deus. Percebem, irmãos, como a avareza é loucura?

Através dessa parábola, o Senhor Jesus nos ensina que a verdadeira realização de um homem, o verdadeiro significado da vida não está nos bens que ele possui, mas no seu relacionamento com Deus. Qualquer conduta diferente é loucura. Por isso, o Senhor Jesus conclui, dizendo: Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus (v. 21).

Agora, convém fazer uma autoanálise. Quais são os nossos valores, irmãos? Onde está o nosso coração? Na busca do conhecimento de Deus? Na comunhão e na edificação da família de Deus? Na comunhão com os irmãos a partir da doutrina, e nos ministérios da Igreja? Será que todos têm aprendido e contribuído para os ministérios da Igreja, ou alguns estão agindo como o avarento que só pensa em si, de si, e para si mesmo, deixando que as coisas deste mundo tomem o lugar das coisas espirituais, que são eternas?

Não permita o bom Deus que a avareza que é idolatria, que é loucura, tenha qualquer espaço em nossos corações, para que o honremos com as primícias de todos os bens e dons que ele nos concedeu, tanto materiais quanto espirituais, para louvor da sua glória. Amém.