As desavenças entre irmãos e a unidade da igreja – 1Co 6:1-8

Queridos, a tônica das nossas pregações tem sido, como deve ser, o ensino visando à santidade, como única forma bíblica para que a Igreja tenha autoridade para testemunhar o evangelho da salvação aos ímpios. Se não vivermos em santidade, se houver desavenças entre nós, como então daremos testemunho do Evangelho de Cristo?

Ultimamente, com o crescimento da secularização da Igreja, e pelo desenvolvimento da tecnologia da informação, temos conhecimento de desavenças entre irmãos, inclusive pastores famosos ofendendo-se mutuamente na mídia, ameaçando com processos judiciais, e até com possíveis agressões físicas, caso se encontrem. Que vergonha!

O que está acontecendo, afinal? Como já falamos, isto é conseqüência da secularização da Igreja, da sua conformidade com os valores do mundo corrompido. O que acontece é que em nosso país, após décadas de repressão sem que os indivíduos pudessem reivindicar seus direitos, os atuais legisladores e governantes, que outrora foram vítimas da repressão, vêm mudando as regras sociais para o outro pólo. Agora todos têm liberdade para exigir direitos individuais, até aqueles que não têm direito algum, por não cumprirem os seus deveres. Como a Igreja é uma instituição social, sociologicamente falando é normal, até certo ponto, que ela se conforme com os valores sociais vigentes.

Embora tenhamos falado que “ultimamente” as desavenças entre irmãos vêm acontecendo como efeito da secularização, na verdade, elas não são novidade, nem a secularização da Igreja nem as desavenças entre irmãos, como se pode constatar ao longo do texto bíblico. O texto que lemos nos mostra claramente que havia litígio entre irmãos da Igreja de Corinto, e, pelas instruções do apóstolo Paulo acerca do assunto,  podemos aprender a prevenir e a agir corretamente em possíveis casos semelhantes, em obediência à Palavra de Deus. Porém, para isso nós precisamos identificar a origem dos problemas.

Qual o motivo das desavenças? Na grande maioria das vezes é a arrogância, o ego inflado, e a sede do poder, em franca desobediência à Palavra de Deus. É comum ouvir dos irmãos envolvidos em contendas, de ambos os lados, que eles só querem que a justiça seja feita. Acontece que a justiça pretendida é diferente para os dois lados, e nós sabemos que, como regra geral, o que se busca é a exaltação do vencedor, e em escala mais elevada, a humilhação do oponente derrotado. Logicamente, essa justiça pretendida não passa de uma máscara para a arrogância e para o egocentrismo, longe da justiça de Deus.

Na Igreja de Corinto não era diferente. Por isso, vamos ouvir novamente as perguntas do apóstolo: se há desavença entre vocês, como é que vocês têm coragem de ir à barra dos tribunais de ímpios, ao invés de resolver a questão no âmbito da Igreja? Desde quando tribunais de ímpios têm aceitação na Igreja? Será que não há nenhum sábio entre vocês que possa julgar o caso dos santos? Que vergonha! Onde está a santidade de vocês? Isto não é atitude de crentes que devem viver em santidade, em obediência à Palavra de Deus.

O apóstolo, então, aproveita a oportunidade para ministrar ensinamento acerca da santidade, numa visão escatológica. Vocês não sabem que os santos, os santos, é bom frisar, haverão de julgar o mundo e até mesmo os anjos? Em outros termos o apóstolo está dizendo: como vocês imaginam que alcançarão esse patamar, essa condição de juízes do mundo e dos anjos, agindo desta forma? Esse comportamento de vocês, na verdade, já é uma completa derrota. A justiça que vocês buscam não é a justiça de Deus.

Como isto é atual, irmãos, como isto é atual. Às vezes, mesmo na Igreja, irmãos ferem a nossa honra, usurpam nosso direito, e parece que esta era uma demanda dos crentes de Corinto, o que justifica a pergunta de Paulo: Porque vocês não sofrem antes a injustiça? Certamente o apóstolo tinha em mente os ensinamentos do Senhor Jesus: “Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra (Mt 5:39). Jesus estava falando de desonra e de humilhação que nos são impostas. É assim que o crente deve agir quando lhe ferem a honra, quando é humilhado. Jesus diz que os humildes de espírito são bem aventurados, e que deles é o reino dos céus (Mt 5:2).

Outras vezes irmãos nos causam prejuízos financeiros, e esta parece ter sido outra demanda dos irmãos de Corinto, o que justifica a segunda pergunta de Paulo: Porque vocês não sofrem antes o dano? Mais uma vez, eu creio que o apóstolo tinha em mente o mesmo ensinamento do Mestre: “ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” (Mt 5:40). Está claro que Jesus se refere à perda de bens materiais, e ele ensina que não devemos acumular tesouros nesta vida (Mt 6:19). Por que então brigar por causa de bens materiais, se isso prejudica a unidade da Igreja?

Por isso, podemos reformular as perguntas do apóstolo: Será que vocês não consideram que a unidade da Igreja é muito mais importante do que a injustiça e o dano sofridos? Será que vocês não consideram que é vergonha para a Igreja, irmãos irem aos tribunais de incrédulos? Onde está posto o coração de vocês, em Cristo e no seu corpo, que é a Igreja, ou em vocês mesmos, na sua honra, e nos seus bens individuais?

Como isto é atual, irmãos, como isto é atual. Tanto a secularização da Igreja como as desavenças entre irmãos, e até a forma errada de tentar resolvê-las é igual aqui e lá em Corinto. O problema é que a maioria dos irmãos daquela Igreja não reconhecia a autoridade apostólica de Paulo, da mesma forma como a maioria dos irmãos das Igrejas de hoje não reconhece a autoridade do seu pastor. Embora esta verdade possa ser negada por todos, ela é evidenciada quando o pastor os confronta com a Palavra, mostrando-lhes os seus erros, e indicando o caminho a ser seguido. A maioria não obedece o seu pastor, assim como os irmãos coríntios não obedeciam a Paulo e aos seus líderes.

Os ensinamentos bíblicos são claros, irmãos: Deus tem um rebanho, e ele mesmo determinou que esse rebanho seja conduzido por pastores capacitados pelo Espírito Santo através do estudo e da oração, mas todos nós sabemos que a grande maioria dos irmãos não segue as orientação dos pastores naquilo que não lhes agrada. O pastor não é considerado pelos irmãos com autoridade competente para julgar seus negócios terrenos, como acontecia na Igreja de Corinto (v. 4).

Qual a conclusão óbvia? Que os irmãos estão dispostos a se submeter ao julgamento dos tribunais de incrédulos, mas não estão dispostos a se submeter ao tribunal do Justo Juiz, o Senhor Deus, através das autoridades da Igreja constituídas pelo Espírito Santo (At 20:28). O resultado dessa prática está no v. 8: irmãos fazendo injustiça e causando dano a outros irmãos, simplesmente porque não se submetem à Palavra de Deus ministrada pelo seu pastor.

Irmãos queridos, este ensinamento do apóstolo Paulo é bastante claro. As desavenças porventura existentes entre irmãos, mesmo envolvendo negócios seculares, devem ser julgadas, mediadas pelo pastor e pelos presbíteros da Igreja, único tribunal competente para julgar as causas dos santos, porque julgará à luz da lei de Deus, e não pela lei de homens incrédulos.

A unidade da Igreja, que é o corpo de Cristo, não pode ser comprometida por demandas seculares, sob pena de prestarmos um desserviço ao Evangelho. A comunhão dos irmãos é mais valiosa do que qualquer bem material e individual. Este era o principal cuidado do Senhor Jesus na oração sacerdotal, antes da sua morte (Jo 17). Por isso, em caso de desavenças, procure o seu pastor, e se for necessário, sofra a injustiça, sofra o dano em favor da unidade da Igreja. Esta é a vontade de Deus. Que ele mesmo, pela sua graça, nos conceda a bênção da obediência à sua Palavra. Amém.

Categoria: MENSAGENS
Publicado em por Pr. Juarez Rodrigues